Una Tierra para Siembrar: Uma busca por Terras Comunais, Unidades de Conservação, Zapatistas e Sementes

Enviado por EMA, seg, 23/11/2009 - 18:10

Bom, já me preparando para minha ida ao Brasil dos meus amores, tive que parar uns dias na Peninsula de Yucatán, por conta de um furacão que passou por onde eu estava, bem tranquilo, apesar de ter causado umas lindas ondas no mar caribeño. De volta mais uma vez à Cidade do México vejo pelos noticiários a imensa quantidade de vacinas que já estão compradas e prontas para serem aplicadas, imagino como as indústrias farmacêuticas devem estar satisfeitas com essa gripe, doença de uns, remédio para outros...

Nesse último mês, continuei minha busca por experiências agroecólogicas e outras cositas más e tive o prazer de entrevistar o padre Atilo, na escola de Agroecologia de Mani, um povoado perto de Mérida.

Esse centro de Agroecologia começou com padres da Teologia da Libertação e após 17 anos de trabalho, chegaram à conclusão de que ao invés de ter um centro para receber estudantes, melhor era ir até às comunidades, que agora já se preparam para ser multiplicadoras regionais. Esses padres surpreendentes, trabalham com os xamãs mayas, multiplicando não só suas experiências com medicina tradicional, mas também fortalecendo suas práticas espirituais tradicionais, como rituais e práticas de cura. Como me disse padre Atilo, “Dizer que Agroecologia é uma técnica de produção de alimentos orgânicos é reduzir ao mínimo o que ela significa: a Agroecologia é a luta pela terra, é o fortalecimento da cultura tradicional e a inter-relação espiritual entre o agricultor e o mundo que o rodeia.”

Mani é uma típica aldeia Maya, com casinhas circulares de adobe e tetos cônicos de palha. Infelizmente, como em todas as outras que visitei, essas construções tão permaculturais, estão rapidamente dando lugar à casas quadradas de cimento e telha de alumínio, uma verdadeira sauna, no calor caribenho. Visitei também nessa região o circuito de turismo indígena, que minha amiga Lilia, da Kanché, trabalha. O circuito inclui uma cooperativa de senhoras que produzem produtos medicinais, músicos mayas tradicionais que fazem concertos de música em uma caverna rodeada por um jardim medicinal e casinhas de madeira e palha para os turistas que vão conhecer os bosques de corchal e esportes de aventura. Tudo controlado pelas cooperativas de moradores e decidido em assembléias comunitárias.

Também conheci pessoas que trabalham em Unidades de Conservação aqui do México, e foi muito interessante saber que nos processos de delimitação de áreas protegidas, a possibilidade de reservas sem pessoas é remoto. Os moradores são parte ativa das resoluções e tudo é decidido em conselhos e assembléias. A grande figura legal que sustenta esse controle popular são os Egidos ou Terras Comunais. Talvez o principal ganho que se manteve com a Revolução Mexicana, apesar de já estar sendo solapado por recentes leis que permitem a compra e a venda.

O Egido são as áreas que historicamente são usadas pelas comunidades e que após a revolução foram consideradas posse das mesmas, mantendo a estrutura do uso tradicional. Cada pessoa tem direito a um terreno na vila e mais uma porcentagem da terra comunal, além das zonas de reserva egidais, onde são preservados os recursos naturais.

Quantas diferenças com nosso Brasil, em que Chico Mendes teve que morrer para que as Reservas Extrativistas pudessem ser legalizadas e que hoje na Reserva Ecológica da Juatinga, RJ, onde trabalho com o Projeto de Extensão da Geografia da UFRJ, o fantasma da desapropriação de terras dos moradores tradicionais, os caiçaras está presente nas propostas dos grandes nomes do ambientalismo brasileiro, que decidem que tipo de reserva será, após sua recategorização.

Conselhos de moradores, cooperativas de turismo alternativo, assembléias comunitárias deliberativas e não consultivas, são um horizonte não muito próximo aos caiçaras. Ao contrário, a proposta que já é dita como ganha, mesmo antes do processo começar é a Reserva de Desenvolvimento Sustentável, bonita no nome, mas que permite empreendimentos não tradicionais, mas que sejam “ecológicos”. Resorts Permaculturais, como já sabemos que estão com os projetos prontos em grandes escritórios de arquitetura de São Paulo, apenas esperando que os grandes nomes ambientalistas decidam em manobras ditas “participativas”, o destino desse povo tão antigo e tão violentado pelas décadas de violenta grilagem de terras e pela corrupção que barra seus processos de legalização de posse no Serviço de Patrimônio da União.

Esses caiçaras com quem trabalho não saem do meu pensamento nem tampouco os quilombolas, pela sua força de resistência. E quanta vontade senti de os trazer para conhecer a experiência zapatista em Chiapas. Os zapatistas são um grande coletivo de comunidades indígenas, que se autodenominam Exército de Libertação Nacional. Em 1994 quando se lançaram em armas para expulsar de seus territórios a presença violenta do governo e principalmente do exército, criaram uma janela para o mundo, com suas propostas de autonomia e auto-organização. Chamaram observadores internacionais, para se protegerem das violências governamentais e seu líder, o sub-comandante Marcos, se tornou um ícone pop, assim como Che.

Mas, visitando os zapatistas pude perceber o sentido que a figura que Che realmente possui para eles. A figura do resistente e do sonhador, que deseja a transformação não só para si, mas também para o mundo, bem longe da figura ingênua e quase estúpida das matérias da Veja brasileira.

O que mais me chamou atenção na experiência zapatista, foi a organização e a calma de seus participantes. E mais ainda a presença da arte. Murais imensos pintados por toda a parte, davam ao cenário rural, um toque de outro mundo, um mundo cheio de sementes criollas e de manejo coletivo da terra, já que uma das diretrizes principais dos zapatistas também é a Agroecologia.

Uma sensação de que não só é possivel o auto governo autônomo dos povos, como ele já está acontecendo, e com sucesso, porque era visível a diferença da paisagem entre as áreas controladas por zapatistas, cheias de roças com bosques e as vizinhas, cheias de plantations ao velho estilo ocidental da revolução verde.

Chiapas é um estado em guerra, assim como Oaxaca e Guerrero. Muitas barreiras militares, muitos infiltrados nas organizações sociais, armas, e soldados. Grande parte do aparato é justificada pela “Guerra ao Tráfico de Drogas” financiada oficialmente pelos Estados Unidos da América. Mas também é possivel sorrir, pois a sobreposição de ocupação do espaço geográfico é incrível. Depois de uma barreira bem mal humorada do exército mexicano, se via as entradas dos territórios zapatistas com placas de Autonomia dos Povos, Fora Plan Puebla Panamá, Terra e Liberdade, a Terra é de quem a planta e por ai vai. Poéticas à parte, muito podemos aprender com essa gente, que não acredita que os sonhos são fúteis e que a organização das comunidades pode gerar realidades melhores que as proporcionadas pelos estados nacionais. Sem se dizerem comunistas, anarquistas ou socialistas, o consenso geral que transparece é a vontade de autonomia e a busca sem medo para alcançá-la. Mas sem pressa. Seus Caracóis, ou Juntas de Buen Gobierno, são o lema de seu movimento, porque vão lentos, mas sempre avançando.

Depois de San Cristobal de las Casas e dos zapatistas, fui até a Selva Lacandona, na Reserva dos Montes Azuis. Essa é uma área imensa, onde o controle egidal se vê presente claramente. Toda a comunidade, incluindo velhinhos e crianças iam às assembléias comunitárias. Os mayas lacandones, apesar de serem muito fortes enquanto comunidade, já sofrem um profundo impacto da evangelização protestante e dos projetos governamentais que despejam sem parar dinheiro e ajuda em forma de construção de casas de cimento e cabanas de turismo. O resultado é chocante. Em um povoado pequeno, a maioria dos pais de família tem seu Honda Civic prateado, quatro portas do ano, mas não deixam de plantar suas roças. Já os jovens não seguem o mesmo caminho e quase nenhum tem o gosto pela agricultura...

Dizem alguns, que tamanha chuva de dinheiro governamental é uma forma de abrandar a força resistente desse povo, para que a auto-estrada que ligaria o estado de Puebla no México passe por suas terras e cruze a América Central, chegando ao Panamá. O fato é que hoje, apesar da maioria das mulheres continuarem a usar seus tradicionais vestidos largos e coloridos, os homens que antes possuiam longos cabelos e trajes igualmente largos de algodão, já são raridade e entre os jovens, mais ainda.

Foi muito intensa a vivência com os lacandones, e um pouco triste também, porque o caminho me fez conhecer Kayun, um velhinho quase cego, que me contou sobre as antigas cerimônias mayas, com flautas, tambores de barro e de casco de tartaruga, as bendições dos campos e os deuses mayas. Mas decepcionado, revelou que era o último de sua comunidade a fazer as cerimônias, mesmo que sozinho, porque hoje, a tradição maya é vista como diabólica e Kayun visto como um herege por sua comunidade. Me contou também que seus avós seguiam um calendário maya de jade, que estava no templo de Bonampak e que foi levado pelo Instituto Nacional de Arqueologia e História, bem mal falado pelas comunidades que conheci, e que esse foi o “ el robo del tiempo” e que depois desse “roubo” não puderam mais contar os dias e adoptaram o calendário gregoriano.

Muitos lacandones me disseram que as histórias dos antigos eram coisas do demônio e que Jesus era o único deus verdadeiro, nosso senhor. É, parece que essa nova onda de catequização evangélica continua encontrando muitos vassalos, e se lança com sede às comunidades indígenas... Assim como se passou com os jesuítas, capuchinhos, fransciscanos, hoje são os Testemunhas de Jeová, Santos dos Últimos Dias e quem diria, nossos conterrâneos da Universal do Reino de Deus já construíram por aqui seus imensos templos de mármore, principalmente nas zonas onde o narcotráfico impera... Mística relação. Afinal, entendi porque no aeroporto do Panamá vi a maior aglomeração de pastores, freiras, missionários e padres de diferentes religiões que já havia visto em toda minha vida.

Mas também foi com os mayas lacandones que eu encontrei as roças policulturais, cheias de mamão, urucum, algodão, cebolinha, coentro, abóbora, cabaça, guandu, milhos coloridos, uma belezura de encher os olhos e também conheci ruínas imensas, do tamanho de Palenque, só que cobertas pela densa selva, porque os lacandones não querem que os arqueólogos as abram ao público, dizem que já é suficiente o que fizeram com a cercana Bonampak.

Deixei os lacandones e cruzei mais algumas barreiras militares até chegar à Palenque, a antiga cidade onde está o templo das inscrições e a tumba do Grande Pakal Votan. Sempre foi um sonho para mim chegar até esse lugar e parece que o de muita gente também, porque o lugar estava lotado de turistas e viajeiros de todas as partes. Os templos muito grandes, guardam ainda algumas inscriçoes e pinturas, janelas em forma de T, e uma linda torre. Mas parece que a avassaladora presença de turistas roubou sua magia, ou algo do tipo, porque era tudo tão comercial que eu quase me senti em um parque de diversões temático maya, que pena... Apesar disso, rebeldemente, queimei copal e fiz uma pequena cerimônia, o que é estritamente proibido, invocando as energias para que possamos resgatar a magia que existe no mundo e que os antigos deuses não sejam vistos como demônios, nem os sonhos vistos como fúteis.

De Palenque fui à Yaxchilán, um templo incrível e bem conservado, no meio da selva, onde os macacos bugios ressoam seus assustadores gritos e onde estão muitas inscrições e rodas de pedra enormes. Quem foi que disse que os mayas não conheciam a roda? Bom, esses com certeza não conheceram Yaxchilán. Inafortunadamente, muitos murais estão em museus europeus, porque foram levados por arqueólogos aos seus patrocinadores... Mas, felizmente, uma estrela imensa, com muitas inscrições, continua no sítio, porque fracassaram as diversas tentativas de leva-la de barco para o já velho conhecido Instituto Nacional de História e Antropologia.

De Fronteira Corrozal, cruzei o lindo rio Usumacinta, com sua imensas Seivas, como são conhecidas as Paineiras, a árvore mais sagrada dos mayas e símbolo da organização do universo maya. Para os mayas, os ramos do alto eram o mundo celeste, o tronco o mundo material e suas raízes o inframundo subterrâneo. E assim cheguei à Guatemala tão esperada.

Logo de chegada, a primeira pessoa que conheci, começou a me contar sobre a avassaladora guerra civil que deixou milhares de mortos, mas que como a revolução no México, deu a posse de terra aos camponeses. O homem me contava animado como se organizaram e ocuparam os latifúndios, e como hoje, ele tinha vacas, plantações e “una tierra para sembrar”. E no Brasil? Me perguntou. Aahhh, no Brasil seguem os latifúndios... Que pena, me respondeu. Não houve revolução por lá? É que revoluções são muito difíceis de fazer, contestei. E meu companheiro francês completou: é mesmo, mas na França já houveram três... E então eu comecei a sentir uma coisa estranha, como se não haver revolução é que era esquisito... Porque os dois me olhavam com uma cara, de por que e eu interiormente também me perguntava: por que não houve uma revolução em nosso país...

A Guatemala me pareceu um mundo de palmeiras Indaiás, porque abundavam por toda a parte, e os guatemaltecos, todos indígenas falantes maya, me pareceram tão obcecados por agricultura como os mexicanos. Em seus pequenos lotes à beira do caminho, se viam as infinitas roças policulturais, em consórcio com espécies florestais, uma aquarela de cores. Mas o ônibus foi se aproximando da cidade de Flores e comecei a ver uma série de placas de cultivos experimentais de sementes híbridas, ou quem sabe, transgênicas, e pude perceber o alcance da indústria mundial de sementes patenteadas. E logo na chegada, me chocou o número de pregadores evangélicos em carros de som, gritando, entrando nos ônibus, um inferno típico dos trens da Central do Brasil.

Nesse país de indígenas, parece que os seguidores de Jesus também tem muito empenho em levar ao Reino de Jeová, mais ovelhas para seu rebanho. Vi muitas igrejas evangélicas sendo construídas e também menonitas, uma seita de brancos vestidos à moda do séc. XIX, que se radicaram neste país e andam com suas roupas negras em meio ao calor tropical.

Fui conhecer Tikal, um incrível conjunto de pirâmides muito altas, rodeadas pela selva. Talvez pela presença das árvores se sente até um certo medo, uma energia muito forte, como se alguém estivesse observando por entre os arbustos. De arrepiar a espinha! Mas a entrada era caríssima, além do transporte das agências de turismo, porque afinal, os mayas antigos se tornaram hoje um grande negócio e por isso resolvi ir de coletivo. Chegando na entrada do parque tive que esperar uma carona, e os guardas me perguntaram se eu não tinha medo de andar sozinha, haviam muitas cobras, muitas onças, malandros de todo tipo e eu respondi que não, que eu era brasileira, que havia nascido e crescido no Rio de Janeiro e que o perigo para mim era uma companhia. Concordaram que realmente um brasileiro não tem muito a temer na Guatemala e me mostraram no jornal a notícia do helicóptero que havia sido abatido no dia anterior no Rio de Janeiro, e concluímos todos que abater helicópteros era de fato um indício de que as coisas estavam um tanto violentas em meu país. Me contaram mais coisas da guerra civil e na volta vi as carcaças de aviões, memórias materiais do que passou esse povo, uma violência tão grande quanto à que vivemos hoje no Brasil, mas que lhes deixou o legado das tão faladas posses legais das terras campesinas.

Da Guatemala segui para o Belize, esse pequenino país negro, até pouco tempo colônia inglesa e que tanto me lembrou a velha Bahia de Todos os Santos… Aaaahh, e meu coração cansado de tanta guerra, encontrou a paz. Porque mesmo com todas as dificuldades que devem ter, o sorriso negro, o abraço negro, encheram meu coração com sua generosidade. Apesar dos vários hotéis estrangeiros, altíssimos preços nos lugares turísticos e o boato sempre presente do perigo das drogas e principalmente dos viciados em crack, esse povo de mestiços, e muitos refugiados das violentas guerras civis da Guatemala, Nicarágua e Honduras, imperava o contato humano e solidariedade.

No pequeno povoado de Manatee, me contaram que seus avós vieram da Nigéria, e logo me deu vontade de ir à Nigéria, porque me seduziu esse povo tão bonito e altivo. E sorriam, e gargalhavam, vestidos com aquela estética de cores fortes e cabelos rastas, velhinhos de longos dreads passavam com suas bicicletas e as senhoras davam um largo sorriso e um adeus carinhoso quando passavamos. Vinda do universo indígena maya de mistério e observação, os vários abraços belizenhos, os risos, as gargalhadas, me soaram como uma volta ao calor das minhas culturas caiçaras, mineiras e quilombolas. E assim que o dinheiro acabou, começaram a aparecer casas e passei a comer muito melhor do que quando tinha dinheiro.

A comida foi um verdadeiro delírio de satisfação, sem dinheiro e comendo o que comia a gente que nos convidava a comer, passei a comer pães de côco, receitas de moquecas com banana verde, pudins de mandioca e os incríveis vinhos locais. Aaaahhhh, o vinho de manga, de caju, de jamelão, de ciriguela, cada um melhor que o outro. Feitos a partir do suco coado, adicionado de açúcar e guardado por mais ou menos um ano ou mais.

Em Manatee, esse primeiro lugar que cheguei, encontrei uma comunidade guardiã de um lago onde moram peixes boi e onde toda a comida era feita com óleo de côco, que produziam na mesma comunidade. Os que não pescavam, eram agricultores. Os quintais eram de cajus, côcos e jamelões. Nesse lugar, nos chegou Ronald, que nos levou à sua imensa roça policultora, com cobetura de solo, adubação verde, e mamões, mandiocas de vários tipos, árvores gigantes, indaiás, mangueiras, pimentas, e a maravilhosa folha de Jagatá, a couve de Ronald. O próprio Zé Ferreira belizenho. Ele no dia anterior, após termos trocado sementes, havia nos contado com lágrimas nos olhos, sua grande angústia: que os jovens de sua comunidade já não queriam mais plantar, e isso para ele era uma dor muito profunda. Esse rasta que vivia repetindo que a coisa mais importante do mundo era compartilhar, e assim ia distribuindo suas frutas nas casas dos velhinhos que já não podiam trabalhar, havia iniciado seu aprendizado desde crianca com seu avô, que lhe ensinou todos os segredos do cultivar, e foi seu sucessor, já que a maioria de seus muitos irmãos, assim como todos os outros irmãos de pessoas que conhecemos depois, estavam nos Estados Unidos.

Meu companheiro Noé e eu, deixamos Manatee com promessas de voltar com mais amigos para ajudar a construir uma casa de sementes na escola e mandar sementes de feijão pelo correio e fomos à casa de Andrew, um coroa que nos deu carona e nos abrigou na casa que cuidava em frente ao mar. Nos adotou como filhos, nos ensinou a pescar de molinete e nos convidou a viver com ele o tempo que quisessemos. Havia saído do Belize com 12 anos em direção à Califórnia e aos 42 voltou, porque queria plantar laranjas e também porque acreditava que algo de estranho estava para se passar no mundo e melhor não estar nas cidades. Contou como toda a sua família estava nos Estados Unidos e como estava feliz de poder ter voltado ao Belize para plantar suas frutas.

Fomos à muitas partes do Belize e depois regressamos ao México, já no meu caminho de volta para casa e assim chegamos à Yucatán. Chegamos com uma carona incrível, de um vendedor de sementes híbridas de várias espécies: abóboras, melancias, tomates… Foi uma jóia, que me fez refletir como não podemos deixar de pegar caronas, mesmo que não necessitemos.

Quando disse ao senhor que trabalhava com sementes criollas, ele me surpreendeu dizendo que a imensa zona que cruzávamos, era de agricultores mayas, e nem o deixavam descer do carro, era gente que não queria contaminar suas sementes criollas mayas!!!!

Também me descreveu como encontram suas sementes matrizes. Vão às comunidades campesinas mais distantes, quase sempre indígenas, e compram seus vegetais. Alugam em média 100 hectares da própria comunidade e semeam com biofertilizantes ultratecnológicos de Neem, de Abacaxi e de Canela. Os melhores frutos levam para seus laboratórios e desenvolvem seus híbridos. Ao governo do estado pagam uma licença; aos moradores, o aluguel dos 100 hectares e pelo uso da variedade genética milenarmente melhorada por essa comunidade, o preço dos frutos que compraram no atacado.

Já sabia dessas metodologias muy éticas das empresas de híbridos e transgênicos, mas foi interesante ouvi-la de um engenheiro agrônomo que as realiza cotidianamente, e além disso, produz melancias orgânicas que voam diariamente em cinco vôos à Dubai, na Arábia Saudita! Maravilhas da Produção Orgânica de Alimentos Híbridos para Mercados Globais!

Vejo agora no jornal da noite, a cúpula de presidentes para debater a fome no mundo, e suas propostas de investimentos de milhares de dólares para fortalecer a agricultura em países “em desenvolvimento”. E fiquei recordando dos campos irrigados com águas industriais em Puebla, nas vastas plantações de milhos híbridos, nas placas de empresas multinacionais de sementes nos campos da Guatemala, os campos irrigados de pesticida em Minas Gerais e fiquei pensando nessa grande “ajuda” que os países “desenvolvidos” vão dar... Em que direção caminham essas políticas de estado? Mas, imediatamente, me vieram à mente, as lágrimas do Ronald, e ao mesmo tempo sua roça imensa e agroecológica, a velhinha maya lacandona e suas várias espécies criollas, os indígenas que não deixam o vendedor de híbridos descer do carro, a escola de agroecologia de Maní, meus companheiros agroecológicos de Oaxaca, as lajes agrícolas da Cidade do México, as pinturas de milhos criollos com carinhas de zapatistas em Chiapas, nossa articulação nacional de agroecologia brasileira. E sorrí.

Sorri, porque mesmo que nossas unidades de conservação brasileiras não respeitem seus moradores tradicionais, mesmo que não tenham um movimento agroecológico nacional organizado no México, ou que terras comunais seja uma realidade árdua de ser alcançada pelos caiçaras e que os lacandones tenham cortado seus longos cabelos e usem calças jeans no calor da selva, nós continuamos aqui. E é como se cada uma das experiências, mesmo que em diferentes países, se complementasse, e mostrasse que os poderosos, os patrões, os que decidem as políticas internacionais, mesmo que sejam muitos, nós somos muito mais. E com um catalizador, nós não buscamos algo apenas para nossas contas bancárias, nós estamos construindo uma outra realidade, resistindo há 500 anos de invasão, nos mesclando, nos unindo, e como disse um professor indígena guarani “o que nos faz ser quem somos, não é a roupa que nós usamos, não é a língua que falamos, nem o deus que oramos, o que faz nós sermos quem somos é a nossa história.” E seguro que estamos construindo uma história de força e como já dizia Milton Santos, essa rede de muitos, está crescendo, crescendo e não tarda para que sejamos tantos, que os poucos que se sentam nas mesas de decisões globais vão perceber que ou se juntam à nós, afinal, vamos precisar de todo mundo, ou vão perder o trem da história.

E assim termino meus relatos viajeiros, de uma pesquisadora que cansou de ler apenas nos livros, a realidade que a cerca. Um abraço muito forte a todos, muita gratidão à existência que me proporcionou essa honra de poder conhecer um pouquinho mais desse mundo tão grande e tão diverso. E a certeza de que a maior escola é a escola da vida, e que os maiores mestres se encontram em casinhas de adobe, no fundo dos vales, lá, onde não mora ninguém, onde não tem vez o conhecimento de quantos batimentos dão as asas dos passarinhos e sim a sabedoria de porque o beija-flor voa todos os amanhaceres e se senta no galho da flor em botão. Que todos os seres possam voar aos seus amanheceres e encontrar as flores que lhes esperam para serem polinizadas.

Tainá Soares

Cidade do México

17.11.2009 lunar

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