Construir um banco de sementes associado à escola local. Esse é o principal objetivo do projeto Casa das Sementes Livres, que está sendo desenvolvido pela Escola da Mata Atlântica (EMA) em conjunto com a Escola Municipal de Aldeia Velha, estado do Rio de Janeiro. Professores, funcionários e alunos articulam a preservação da diversidade a um conteúdo pedagógico.
Nas salas de aula da Escola os pequeninos, da 1ª a 4ª série ou os alunos da Educação de Jovens e Adultos (EJA), à noite, estão sendo estimulados a participar do banco de sementes em Aldeia. O lugar, com pouco mais de mil habitantes, é um dos distritos de Silva Jardim, área das Baixadas Litorâneas do estado. Rica em água, morada do mico-leão dourado, a região está perdendo suas matas para a expansão da pecuária. Os agricultores, carentes de informações acerca de processos ecológicos de manejo do solo, sentem-se pressionados por órgãos de fiscalização e diminuem seus roçados, o que enfraquece sua subsistência e os leva a perder suas sementes.
Com o intuito de aprofundar essas questões, a Escola da Mata Atlântica, grupo de pesquisa formado por universitários e moradores, trabalha há três anos a educação ambiental através de cursos gratuitos em espaços de convivência da comunidade. Há um ano, organiza a criação de um banco de sementes comunitário: a Casa de Sementes Livres (CSL). O projeto tem as seguintes parcerias: Escola Municipal Vila Silva Jardim, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Associação Software Livre (ASL), i-Motirô, Ong Verde Cidadania, Secreatarias de Meio Ambiente, Educação e Promoção Social de Silva Jardim.
O bê-á-bá: cada estudante uma semente
A coordenadora de Agroecologia da EMA, Tainá Soares, explica que trabalhar em conjunto com a escola local é entender que a preservação do conhecimento tradicional está ligada ao espaço: “Resolvemos prezar um local já reconhecido, de construção e resgate da memória, onde estão não só as crianças, mas todos os moradores que precisam ou querem aprender”. O objetivo maior é promover um intercâmbio entre conhecimento científico e tradicional. Mara Dalila Lemos, diretora da escola na época da implementação do projeto e agora professora, acreditou na proposta: “O novo sempre dá medo, mas essa interação da escola com outras áreas do conhecimento tem enriquecido nosso currículo e diminuído nosso isolamento”, avalia. A horta da escola foi liberada para ser um módulo de plantio agroecológico e medicinal, que serve de estudo de campo para os alunos da escola e para visitas de toda a comunidade.
Em 2007 foi realizado um curso de introdução à Agroecologia com temas como “O perigo dos venenos nas plantações”. Na visita à horta da escola, eram ensinadas receitas caseiras, como a de calda bordalesa. “Muitas crianças lá eram filhas de agricultores e é muito interessante que a escola tenha aberto esse espaço de diálogo, porque elas prestam atenção no que é novidade”, conta Claudemar.
Agora estão sendo estabelecidas as diretrizes para o funcionamento do banco na escola, através de um curso de formação para as professoras da Escola local. Em encontros semanais, com presença de convidados especialistas em cada área – agroeocologia, educação rural, software livre, entre outros – está sendo pensada a dinâmica do banco enquanto instrumento de pedagogia ambiental. A idéia é que ele funcione como uma extensão da sala de aula, apoiando atividades de diversas disciplinas. Na aula de Matemática pode ser realizada a contabilidade de quilos de sementes doadas e recebidas, enquanto na aula de História podem ser estudadas as suas origens, por exemplo
Casa de Sementes: desafio e necessidade local
A EMA vem realizando visita aos agricultores da região para cadastrá-los no banco de sementes. Através da visita às suas roças e do preenchimento de um questionário, são identificadas as sementes que eles possuem o costume de guardar em casa, quais eles não encontram mais na região e ainda quais gostariam de obter.
Muitos agricultores ainda possuem espécies de milho e de feijão antigas, como chamam as sementes crioulas. O milho branco, o milho cateto e o feijão ‘rapa-cuia’ são os exemplos mais presentes. E se orgulham em dizer que a melhor broa é a branquinha, feita do milho branco de seus avós. No entanto, eles reclamam que muitas variedades já são difíceis de serem encontradas e se queixam das sementes vendidas nos armazéns que precisam de mais fertilizante do que as antigas e não procriam no ano seguinte.
Uma dificuldade apontada pelos alunos da escola é a falta de terras em Aldeia velha para o plantio, problema bem conhecido da população brasileira. Por isso, a EMA pretende estabelecer parcerias com os fazendeiros locais para liberar pequenos lotes de terra onde as sementes possam ser plantadas por coletivos e famílias de moradores.
Além de guardar e multiplicar essas sementes, a CSL vai obter aquelas desejadas pelos agricultores, como as de tomate. “A UFRRJ vai doar muitas variedades antigas de tomates, porque os bancos de sementes comunitários são importantes na preservação do germoplasma e também na cooperação entre os agricultores”, argumenta o Diretor do Instituto de Agronomia da universidade, Professor Antônio Abboud.
Os encontros estão sendo filmados para a produção de um documentário e os convidados escreveram sobre a experiência, para produzir um material didático (DVD+cartilha) a ser distribuído em outras escolas, incentivando a criação de mais bancos de sementes.
Software livre, semente livre.
A grande novidade da Casa de Sementes Livres está na parceria com a Associação de Software Livre, que doou R$5 mil reais para o processo de construção do banco e do material didático. Além, é claro, da compra de sementes, que está sendo feita com a Bionatur. A Escola Municipal já tem um servidor completamente novo e mais 3 computadores doados pela Sec de Promoção Social de Silva Jardim, formando assim um mini-telecentro todo em Linux. Em 2008 a mesma Secretaria pagou três meses de bolsa para um monitor ensinar a informática básica na tecnologia livre. No momento, a EMA procura financiamento para novos monitores.
O movimento do software livre (SL) está lado a lado com as sementes crioulas porque ambos são contra os abusos da propriedade intelectual. O SL é composto por um conjunto de informações, sobre o qual não incidem patentes. Assim, como no caso das sementes antigas, não há que se pedir autorização a um proprietário. O conhecimento usado na construção dos programas está disponível em forma de código-fonte, que funciona como o código genético de uma semente, que é livre para ser usado, copiado e distribuído, com ou sem custos. Os programas com software livre são como as sementes crioulas para os agricultores: conhecimento coletivo, trocado e aperfeiçoado por comunidades inteiras para seu sustento.
Tadzia Maya, jornalista